Livro Proteção à Testemunha - 5 primeiros capítulos!


Capítulo 1
Uma visita perturbadora

Era uma noite calma, um pouco fria, mas confortável. Como de costume eu estava deitada em minha cama lendo um de meus livros favoritos enquanto tomava, aos pequenos goles, um chá saboroso de erva doce qual espalhava seu delicado aroma pelo ar. Ao virar delicadamente a próxima página do livro sob a tranquilidade que me cercava, ouço uma batida forte na porta, uma batida insistente que por um momento me assustou de modo que eu senti o coração palpitar com grande velocidade. Fixei os olhos na porta do quarto. Mesmo que de forma bem evidente, a batida não vinha desta porta, mas da porta da sala no andar de baixo.
As batidas se intensificavam, assim sendo, decidi me apressar para descer e ver quem chamava tão decididamente. Coloquei sobre a camisola de algodão branca que usava, um roupão felpudo num roxo escuro e misterioso, não tanto quanto a surpresa que tive ao abrir a porta e me deparar com um rosto familiar, mas descorado, perturbado por alguma causa que era de total desconhecida por mim. Mal abri a porta e Alicia precipitou-se para dentro como se fugisse de algo assombroso, sentou-se no sofá e olhava em volta como que sendo observada, com terror absoluto e corpo trêmulo. Fiquei nervosa com a situação, mas não fui capaz de abrir minha boca em nenhuma frase ou palavra se quer, estava perplexa. Nunca antes eu havia visto Alicia desta forma, assumo que não sabia o que perguntar e que o medo dela vinha sobre mim assim como um vento forte de chuva.
Assustada, fechei a porta e todas as trancas quantas tinha. Mordia os lábios de aflição, fiquei por alguns segundos paralisada me apoiando com as costas na porta. Aos poucos voltei a mim, voltei a sentir a respiração que parecia ter cessado. Pensei comigo: “Que besteira! Ficar tão nervosa sem nem saber o motivo!” – mesmo assim de forma instintiva me levei à janela e abri uma pequena fresta da cortina pela qual observei se lá fora alguém nos vigiava ou se havia algum prenúncio de problemas. Olhei em cada canto do jardim, passei os olhos lentamente em todo o parâmetro possível de ser visto pela janela. Mas nada, nem uma alma sequer. Suspirei aliviada, no entanto eu não sei dizer o que esperava encontrar quando aturdida olhei detalhadamente o jardim, não sei mesmo. Felizmente nada de anormal se encontrava lá fora, parecia que a paz havia voltado à minha casa se não fosse a face desfigurada e trêmula da criatura que eu nem sei dizer se realmente conhecia.
Decidi me acalmar e tentar fazer com que Alicia se acalmasse também. “Eu não vou perguntar nada por agora, não vou deixá-la pior do que já está” – pensava comigo mesma ao subir para meu quarto. Em pouco tempo voltei à sala com uma coberta de um lado do braço enquanto segurava a xícara de chá frio do outro. Coloquei a coberta sobre Alicia que estava tão gelada quanto uma defunta, ao tocar em seu braço me arrepiou a coluna. Segui andando até a cozinha tendo pequenas tremuras gélidas pelo corpo. Parecia a premonição de algo realmente horrendo. Voltei a esquentar no fogão o bule com o restante do chá, coloquei um pouco na minha xícara e um outro tanto numa outra xícara destinada a minha amiga ausente de espírito.
Voltando à sala me abaixei e olhei Alicia nos olhos esticando-lhe a xícara de chá, o vapor passava-lhe no rosto o que provavelmente deve tê-la acordado de seus devaneios sombrios. Ela apenas esticou a mão e pegou a xícara levando-a lentamente até a boca de forma tão automática que acabou por se queimar. Soltou no mesmo instante a xícara no chão espatifando-a em vários pedaços e causando grande barulho. Finalmente Alicia começou a falar palavras trêmulas, falhadas e rouca com uma pressa e desorganização de pensamentos que atropelavam a lógica e compreensão.
– Mari, desculpa! Quebrei sua xícara, desculpa... – um mar de lágrimas escorreu por seu rosto e soluços acompanhavam o desespero, eu abracei-a e encostei meu rosto no dela, senti que pelo menos as lágrimas eram quentes, algo ainda vivia naquela alma pálida. Alicia chorava muito, soltei-lhe os cabelos loiros longos e encaracolados que caiam sobre suas costas como um manto dourado. Passei as mãos neste cabelo macio como a mãe que acalenta um filho, assim ela foi se acalmando até que as lágrimas cessaram, seu corpo estava novamente aquecido e em sua face um rosa desbotado. Suspiros seguiram-se de suspiros.
– Amiga, obrigada por me acolher – Alicia finalmente conseguia falar mais firme e presente – desculpa por vir a esta hora da noite, pelo susto, pelo escândalo e pela sua xícara quebrada...
– Imagina Alicia que eu vou me apegar a uma xícara. Fico feliz de que esteja melhor. Realmente fiquei preocupada.
– Só não sei se vou ficar bem por muito tempo. Não sei quanto me sobra de vida.
Levantei-me como se tivesse visto a morte e seu punhal ao lado da moça e com olhos arregalados de boca aberta fitei-a, me espantava a sua fala que possuía grande certeza e conformidade. 
– Não fale assim! Por que morreria? – a indaguei.
– É melhor você não saber Mari. Não seria bom pra você.
– Mas é claro que eu devo saber! Como é que eu posso te ajudar se ficar me escondendo o seu problema, não é assim que a amizade funciona.
– Você já me ajudou muito abrindo a porta da sua casa e me acalmando, não quero que tenha o mesmo destino miserável que terei.
– Pare de falar em códigos! Me explique o que esta acontecendo. Por favor, eu preciso saber... – com grande suspiro Alicia decide contar seus medos.
– Mari, você lembra que eu sempre lhe contava que andava com um homem charmoso, elegante e de dinheiro?
– Claro que lembro! Você falava com muita animação.
– Sim, odiosa animação que me levou ao atual estado em que estou. Pois este homem tão maravilhoso não é ninguém menos do que O governador...
– Quê! – eu não sabia mais o que pensar de tão surpresa que fiquei ao ouvir estas palavras – Mas como assim o governador, ele é casado!
– Eu sei... mas me deixei envolver e por fim, estou grávida, grávida de dois meses...
– Mas Alicia como você se deixou seduzir por um homem casado?!
– Quando o conheci num clube da alta sociedade fiquei impressionada com seu charme, elegância e modos. Ele fazia sentir-me única. Era uma sensação agradável e desejável. Não pude evitar que esse romance florescesse dentro de mim. Mas tudo desabou assim que lhe contei que estava grávida.
– E como foi?
– Como foi? – sua voz soava como um choro, um lamento profundo – Foi uma guerra mundial! Aquele homem belíssimo, fino e bondoso se tornou o demônio! Gritava comigo em minha própria casa como se eu fosse um cão sarnento... foi horrível! Muito humilhante.
– Ele não tem esse direito! Ainda mais na sua casa. E o que ficou resolvido?
Alicia olhou de canto de olho para a parede e se abraçou encolhendo-se mais ao sofá. Depois da minha insistência no olhar ela continuou.
– Resolvido?... Qual a forma melhor de se resolver uma gravidez indesejada?
– Não Alicia! Você não esta pensando em matar essa criança, ela não tem culpa da imprudência de adultos!
– Não Mari! Eu não seria capaz. Você bem sabe disso!
– Então? Como fica?
– Eu quero criar essa criança, mesmo que seja sozinha... mas...
– Mas...?
– Dr. Lauro Prophiro, ou melhor, conhecido como: “O governador” disse que se eu não tirasse esse bebê, ele mesmo o faria!
Um grande nojo e aversão me vieram contra este homem, maldito seja! Como pode pensar em fazer algo medonho e horrendo como isso? Matar um bebê e sua mãe? Monstro cretino! Eu sentia vontade de ir lá e matá-lo primeiro. Mas vontade não é coragem, nem poder... Apenas me sentei com o sangue fervendo e fixei os olhos em Alicia. Sentia minhas bochechas arderem, provavelmente deveriam estar em vermelho fogo neste momento. 

– Ele não vai te matar, não vai mesmo! Não em minha casa! – prometi a Alicia. Ela por um instante deu um leve sorriso esperançoso ao ver meu interesse em seu bem estar, mas esse sorriso logo descaiu em seriedade e descontentamento.
– Mari... eu bem que queria acreditar nisso, mas receio não ser possível. Creio que irei morrer tão cedo quando penso.
Eu não conseguia aceitar essa idéia, era odiosa!
– Pare de falar assim, Alicia! Você vai passar a noite aqui comigo e amanhã iremos a policia pedir proteção contra essa praga de homem.
Alicia apenas balançava a cabeça de um lado para o outro com completa incredibilidade na policia ou em minha proteção. Ali no sofá ela deitou e adormeceu, com uma expressão triste e cansada. Também achei que era hora de dormir, depois poderíamos resolver isso de manhã numa delegacia. Acabei por adormecer na poltrona ao lado do sofá. 
Lembro-me que no meio da noite acordei com um barulho que vinha do quarto no andar superior. Pés se arrastando. Levantei-me silenciosamente e fui à cozinha pegar uma faca. Eu estava certa de que se era alguém com intenções mortais que este se daria muito mal porque eu estava munida de um objeto cortante. Como às vezes somos ingênuos, achamos ser imortais e todo-poderosos... Que nada! Não passamos de pó e cinzas.
Verifiquei se Alicia estava bem e pude ver que dormia calmamente, aparentemente esquecida da tormenta que a perturbava e nem de longe ciente do perigo que a cercava. “Como em alguns momentos a ignorância nos faz feliz” – pensei comigo mesma. Passei a subir as escadas cautelosamente com a faca bem segura na mão e determinada a enfiá-la no peito do primeiro infeliz que me aparecesse à frente.
Quando cheguei a meu quarto percebi que a janela estava completamente aberta, as cortinas esvoaçavam pelo quarto, mas não havia ninguém. Olhei atrás da porta, por debaixo da cama e no guarda-roupas. Não, certamente se havia alguém, este fugiu em disparada. Ou talvez tenha sido apenas minha imaginação. Me aproximei da janela e pus minha cabeça para fora, a noite parecia calma mas o vento era forte, a lua estava tímida e clareava fracamente. Vi apenas sombras disformes onde eram casas, árvores e carros. Continuei a contemplar por mais alguns instantes até que fui acordada num susto.
Um grito aflito de socorro! A paz se quebra com a facilidade de uma vidraça. Foi quando me dei conta de que Alicia ficara sozinha na sala e que este grito não poderia ser de outrem. Sai correndo possessa de aflição, angustia e medo do pior. Ao descer as escadas escorreguei e, no que cai, deslizei de nádegas uns três ou quatro degraus. Por sorte, desta vez a faca estava longe do corpo e no tombo a mesma foi arremessada para trás caindo longe de mim. Sentia um ardor na pele. Mesmo dolorida, levantei com certa rapidez e continuei a descer as escadas.
– Ahhh!!!! – tampei minha boca, mordi a mão até senti-la doer. Que cena pavorosa, chocante! No chão estava jogada Alicia, com o rosto para cima e as mãos sobre a barriga como se pudesse proteger o filho esperado, a pobre criança rejeitada. Seu pescoço estava cortado de um lado a outro. Sua pele clara e seus cabelos dourados tomavam outra cor, respingos de sangue por todo o chão, tudo estava vermelho vivo, vermelho morte. Neste momento eu sabia que jamais esqueceria essa cena, jamais poderia fechar os olhos sem ver aquele rio sangrento e a pobre defunta jogada como um animal selvagem de caça. Oh, meu Deus!
Liguei para emergência, que logo chegou. Eram cerca de três carros de policia que fecharam a entrada e com fitas vetaram tudo. Já era cerca de seis horas da manhã ou seis e meia, não me lembro bem. Eu apenas de roupão do lado de fora, impedida de entrar em minha própria casa. Naquela manhã tinha um sol leve que esquentava um pouco o ar frio da manhã, mesmo assim a névoa não o deixava esquentar o suficiente. Estremecia, não sei se de frio como pensava ou de horror pelo que tinha visto. Sentada estava eu no banco de um dos carros de policia, com um copo de café bem quente na mão e olhos parados no nada. Enquanto isso a perícia estava remexendo em tudo, buscando pistas do assassino. 
Fui acordada de meus pensamentos por uma voz masculina forte, no entanto bondosa. – A senhorita esta bem? – Ao levantar minha cabeça vi que era um jovem belo de uns vinte e sete anos, moreno de cavanhaque e olhos lindos. Me senti um lixo por ser capaz de fazer todas essas observações após ter visto uma grande amiga estirada morta no chão. Mas foi inevitável não reparar nessa aparência incomum e chamativa. No entanto não pense que fiquei feliz ao vê-lo, se fosse em outra circunstância talvez, mas não naquele momento. Apenas o admirei rapidamente e voltei meus olhos ao nada. O policial insistiu.
– Moça... você esta bem? – então acenei com a cabeça que sim, para que parasse de me fazer perguntas. Mas não adiantou, ele continuou.
– Sei que deve estar aterrorizada com a cena em sua sala, não quero ser insensível, mas sou da policia e responsável pelas perguntas, então...
– Sim, tudo bem. Eu sei que essa é sua função.
– Isso quer dizer que deseja cooperar neste momento?
– Tudo bem, o que preciso dizer?
– Bom... primeiro qual era sua ligação com a moça morta na sala?
– Éramos amigas, quase que irmãs. Crescemos juntas na mesma rua. Ela morava aqui perto, acho que na quarta esquina – o policial anotava tudo em uma prancheta.
– Certo, deve ter sido traumatizante para você, não?
Balancei a cabeça que sim. Suspirei e continuei mesmo sem mais perguntas.
– Sinto-me uma inútil por não tê-la protegido como prometi, que raiva de mim mesma! – até o momento estava tão atormentada e nervosa que ainda não tinha chorado uma gota.
– Sinto muito por você e sua amiga, mas não havia o que pudesse fazer. Pelo que tudo indica era um assassino profissional. Mas, me conte o que aconteceu minutos antes do incidente... você chegou a ver o assassino?
– Não, eu não vi o assassino. Pouco antes eu ouvi passos no andar de cima e subi as escadas para verificar, não tinha ninguém, mas a janela estava aberta como se o quarto tivesse sido invadido e esvaziado rapidamente. Enquanto eu fitava a rua ouvi gritos e foi quando desci e vi Alicia jogada no chão toda ensangüentada.
– Hum... mesmo não vendo o assassino, tem idéia de quem tenha sido? Ela havia sofrido ameaças? Creio ter sido vingança.
Eu senti muito medo de me envolver dizendo o que sabia, mas afinal, eu já estava envolvida mesmo! Então revelei o assunto que ela tinha me dito sobre o governador antes de morrer. O policial me olhou espantado num sobre-salto: “– O governador?! Tem certeza?” – tive que confirmar diversas vezes. Todos pareciam incrédulos e outros mofaram dizendo que só poderia ser piada, mas o policial que me entrevistou falava veemente que acreditava em minha versão, que uma pessoa em minhas condições não poderia estar contando piadas! Mas de nada adiantou, apenas acenaram a cabeça em discordância. Foi quando tive a certeza de que o caso não ia ser levado a sério. “Justiça? Do homem é que não virá!” já ouvi muito esta frase, nunca se mostrou tão verídica em minha vida quanto agora.
Enquanto os policiais entravam novamente em minha casa para “apreciar” a cena que estava sobre o carpete da sala eu fiquei olhando em volta a rua que começava a se encher de curiosos, pessoas que iam comprar pão paravam de frente na calçada e ficavam olhando e murmurando sobre o que havia acontecido. Até pessoas que se dizem tão ocupadas param para olhar, é nessas horas que penso: “Como o ser humano parece ter apreço pelo mau, pela desgraça, pelo desfalecimento... sim, se for de outrem, pois não lhe é agradável caso seja consigo mesmo ou familiares. Bando de egoístas!”.
Capítulo 2
Renan e Brenda

Observando todos que passavam e paravam na rua percebi um carro de médio porte preto com vidros fumê, quando o vidro abaixou mesmo que por pouco vi que era o governador, cretino! Veio ver se o trabalho foi bem feito e suas feições demonstravam total satisfação, homem execrável! Tão logo percebeu que as pessoas o notaram com curiosidade e por isso saiu em disparada nem reparando em minha pessoa.
Eu me levantei e fiquei aturdida fui até o portão e na calçada fiquei olhando o carro sumir. O policial que falara comigo percebendo que eu havia saído do jardim foi correndo ao meu encalço. Ao se aproximar colocou a mão esquerda sobre meu ombro e também ficou olhando o horizonte onde o carro já havia sumido. Mas eu continuava olhando como se ainda o visse, então o policial tomou a minha frente no que despertei e ergui a cabeça até fitar-lhe os olhos. Ele sorriu gentilmente.
– Houve algo aqui que eu deveria ficar sabendo?
– Sim... mas não sei se vai ser de grande ajuda. Irão zombar e dizer que estou comediando. Não acredito mais em justiça, as pessoas são muito frias e insensíveis ao sofrimento alheio.
Ouvindo minhas palavras o policial levou a mão à boca num gesto pensativo, então voltou a me olhar e esticou a sua mão em um cumprimento. Eu fiquei sem entender apenas olhando para a mão estendida, estupefata. Levantei lentamente a cabeça no que o mirei. Ele tinha nos lábios um sorriso amistoso que me motivou. Estendi-lhe minha mão e correspondi seu cumprimento, ele a apertou com firmeza e meneou-a.
– Não tiro sua razão de pensar assim, somos dois! – me respondeu ele.
– Você também não acredita na justiça? – perguntei intrigada. “Afinal ele é um representante da justiça” – pensava comigo mesma.
– Acreditar até acredito, mas sei que em algumas vezes ela é quase nula. Estou me comprometendo a resolver este caso. Acompanharei cada passo das investigações e enviarei pessoalmente uma intimação ao governador para que compareça e dê explicações. No mais irei te manter informada sobre tudo.
Essa promessa me fez sentir um pouco mais de segurança sobre a justiça e mais reconfortada. Mas eu não entendia o porquê de seu interesse neste caso. Ficava imaginando que talvez... melhor não pensar nisso! Ele estendeu um pequeno cartão escrito a mão em letras de forma. Fixei meus olhos no nome: Renan e dois telefones. Percebi então que ele me entregava seus dados de contato.
– Por favor, se lembrar de algo mais ou estiver em perigo, me ligue. Virei o mais rápido possível – ao terminar de me falar isso, eu lembrei e puxei de dentro do bolso do roupão um papel escrito em caligrafia difícil de ler. Garranchos. Eu mesma já havia tentado e desisti.
– Tome – disse estendendo o papel para ele – esse papel eu achei ao lado do corpo e guardei comigo.
Renan pegou o papel surpreso.
– Por que guardou o papel e não falou antes?
– Achei que tinha sido deixado para mim e não confio muito em todos da policia, não se ofenda. Também só lembrei agora de que detinha a posse dele.
– Entendi! Não me ofendeu. Realmente sei que alguns policiais são corruptos, isso é fato, não há como negar. Seu medo é justificável.
Ele percorria o papel com os olhos, grande era o seu interesse. As palavras incompreensíveis para mim, pareciam datilografadas com esmero para ele. Com facilidade lia cada linha e suas expressões não eram boas, flexionou as sobrancelhas juntando-as e novamente levou a mão à boca com expressão de preocupação enquanto na outra mão segurava o papel assombrado. Ele me olhou com pena, foi o que senti que dele vinha grande pesar por algo muito ruim endereçado a mim no papel. Não tinha mais dúvidas, realmente foi deixado para que eu lesse. Será algum tipo de aviso? O conteúdo antes desprezado agora me fomentava curiosidade com inquietação.
– Neste bilhete diz: “– Quanto tempo deseja viver jovem Mari? Sei onde mora, seus hábitos diários e sua relação com Alicia. Foi um grande erro ter aberto a sua porta nesta noite. Não quero problemas, apenas não conte à conversa que teve antes do incidente e ficará bem! Não seja tola. Se pensar em justiça, lembre-se de que “os mortos não precisam ser vingados, mas os vivos precisam ser guardados.”
Entreolhamo-nos com real horror. Arregalei os olhos em medo. O policial me segurou pelo braço, pois meu corpo pesava e minhas pernas não agüentavam mais ficar em pé, senti que por pouco não desmaiei.
– Olha, você não pode ficar aqui. Precisa de proteção. Venha comigo para a delegacia, certo? A coisa é mais séria do que pensei. – me advertiu Renan. Eu fiquei tão desamparada ao ouvir essa noticia que o nome Renan me pareceu o mais familiar e seguro naquele momento, e talvez o fosse por um bom tempo. Assim, concordei em acompanhá-lo a delegacia para abrir queixa e depor minha versão. Saímos na viatura.
No caminho eu fiquei quieta com o queixo apoiado na mão direita e o cotovelo sobre o apoio da janela do carro. Renan dirigia muito concentrado, fiquei fitando-o de segundo em segundo disfarçadamente. Vi que aparentava ser alguém de virtudes, extremamente competente e prudente. Percebi pela forma em que dirigia, mantendo uma velocidade sempre na média e a delicadeza em que freava quando necessário, dirigia muito bem. A farda era aprimorada, sem amarrotados ou manchas, passava grande confiabilidade.
Ele encostou o carro em frente a uma casa e voltou-se para mim bem na hora em que eu estava examinando-lhe, fiquei muito sem graça e por isso abaixei o olhar. Ele apenas sorriu.
– Não se assuste, paramos de frente a casa da minha irmã. Pode descer, acho que é bom se acalmar um pouco antes de entrar num ambiente desgostoso como o de delegacia.
Fiquei realmente sem jeito pelo convite, mas aceitei. A casa era muito bonita, com grandes janelas e uma grama bem cortada, senti falta apenas de canteiros de flores que dariam um ar mais alegre ao ambiente. Renan tocou a campainha e em poucos minutos a porta foi aberta por uma jovem senhora de bela aparência, deveria ter uns trinta e dois anos mais ou menos, seu rosto era extremamente parecido com o de Renan, certamente eram irmãos. Cabelo castanho escuro preso por um meio coque deixando uma franja rala de lado. Vestia uma blusa branca simples de algodão e calças do mesmo tecido na cor verde água. 
– Bom dia Brenda! – iniciou Renan.
– Bom dia Renan! – respondeu risonhamente à senhora Brenda. Depois ela deu uma boa olhada em mim, eu estava um pouco encolhida às costas de Renan, seus olhos eram examinadores tanto quando os meus costumam ser, me senti nua perante aquele olhar. Ela cruzou os braços e com ar desdenhoso seguiu.
– Hum... E essa ai? Quem é?
– Essa é a senhorita Mari, mora em um bairro aqui próximo. Eu tomei a liberdade de trazê-la para tomar café na sua casa e gostaria de saber se poderia ter e gentileza de emprestar uma roupa para ela.
Novamente aqueles olhos de águia da dona Brenda me mediram toda, no final ela apenas sorriu e fez sinal para que entrássemos. Sua casa era de um branco reluzente, bem organizada, limpa e arejada. Após fechar a porta voltou seu olhar em mim.
– Bom moça, me siga até o quarto. Vou te dar algumas mudas de roupa. Vamos ver se servirão em você...
– O-obrigada! Mas eu pretendo devolve-las assim que possível – me apressei em lhe garantir. Ela apenas balançou a mão como se fosse sem importância.
– Não se preocupe. O Renan sempre traz moças quase desnudas para eu vesti-las, já estou acostumada. O bom é que sempre tenho um guarda-roupa renovado, pois ele me ajuda a comprar vestuário novo como recompensa.

Virei para Renan descrente com interrogação nos olhos, deixando-o extremamente vermelho e sem graça.
– Pára de falar essas coisas Brenda, o que a moça vai pensar? Que sou algum tipo de maníaco!
– Nada mano, depois eu explico melhor as coisas pra ela. Se deseja ajudar, vai esquentando o leite porque você sabe muito bem onde fica cada coisa na cozinha, não sabe?! Enquanto isso, vamos subindo minha jovem – fui puxada a contra-vontade por ela.
O quarto era tão bem organizado como o resto da casa. Tudo parecia ter seu lugar certo. Bem diferente da minha, pois sempre pensei: “Casa é lugar de livre expressão”. Tão livre que tinha dias que parecia uma floresta.
Fiquei em pé na porta tímida enquanto Brenda abria o guarda-roupa e ora olhava para as roupas dentro dele, ora olhava para mim me medindo e pensativa. Depois de uns minutos ela tirou duas peças de roupas e as estendeu para mim.
– Tome, vista isso. Vai ficar um pouco grande porque você não tem nada de bunda ai, mas dá para quebrar um galho.
– Claro, é de grande ajuda. Agradeço muito.
Me apressei em despir o roupão roxo que estava usando e a camisola branca, mesmo assim ela continuava me olhando. “Mas que mulher mais desconfiada! Parece que esta procurando algo em mim, perdeu o quê comigo?!”.
– Sabe – Brenda começou uma prosa – essa sua camisola é muito bonita, bem delicada, você é moça solteira né? – me surpreendi com a pergunta e ao mesmo tempo fiquei curiosa de como ela percebeu isso apenas por minha camisola.
– Sim – respondi – Como sabe?
– Simples – sorriu – Só moças solteiras que tem costumes caseiros usam esse tipo de camisola de algodão com babados e florzinhas, além de calcinhas médias e desenhadas – sorriu de novo.
Me senti humilhada. “Esta caçoando de mim!” – pensei. Ela continuou.
– Seria uma boa esposa para Renan.
Depois que ela terminou essa frase eu, que estava vestindo a calça, me desequilibrei e cai sentada no chão. Meu rosto ardia de vergonha.
– Co-como?! Espera um momento, eu apenas preciso da ajuda dele para resolver um problema que surgiu e nada mais! – percebendo o quanto eu estava sem jeito e que me tremia ela balançava a cabeça com aquele sorriso de graça.
– Calma! Eu apenas estava fazendo um comentário pessoal. Gostei de você, só isso. Normalmente as moças que Renan traz aqui são vadias que ele encontra nas ruas e bordéis por ai.
Fiquei muito ofendida, tanto que esqueci a gentileza que ela estava me prestando e de forma grosseira retruquei.
– Senhora Brenda! Eu não sou uma vadia! E se o seu irmão tem esses costumes questionáveis não me diz respeito! Ele é apenas o policial que esta cuidando de um caso que me envolvi por infelicidade. Não tenho, e nem pretendo ter nada com ele!
– Calma, calma. Eu e minha boca grande... Não quero que se ofenda, sim? Por favor, não me leve a mal nem imagine coisas com respeito ao meu irmão. Como sabe, ele é policial, certo?
– Sim, é a única coisa que sei. E que fique bem claro – costurei no ar a frase.
– Você sabe como é rotina de policial? Ele sai à noite toda resolvendo problemas aqui e ali, assassinatos e etc... muitas vezes teve de resolver crimes em lugares horríveis, já teve de acudir prostitutas bem como outras mulheres e até mesmo travestis que sofreram algum tipo de abuso ou violência. Ele é tão bobo que se preocupa demais com as pessoas. Eu já o avisei que qualquer dia vai trazer problemas pra casa, mas enfim, ele não me escuta. E como moro na jurisdição que ele trabalha, sempre traz alguém aqui para que eu vista, dê café, almoço ou janta. Ele diz que mesmo sendo pessoas que vivem a margem da sociedade, ainda sim são pessoas e se precisam de ajuda ele não irá negá-la. É um coração mole. Mas só reprisando, ele nunca teve nenhum relacionamento com essas moças e menos ainda com os travestis, pelo amor de Deus... não imagine isso!
– Não estou a imaginar nada, mas é que...
– Eu sei, eu sei... me expresso muito mal às vezes... Perdoa minha indiscrição! Mas então... não ignore a hipótese de conhecer melhor meu irmão, ele é solteiro, um cavalheiro, não é do tipo namorador e também já tem vinte e oito anos... – depois da última observação eu não consegui segurar o riso. Ela tava tentando casar o irmão porque ele já tinha vinte e oito anos e ainda era solteiro, coisa típica de irmã mais velha. Eu apenas terminei de abotoar a calça e refazer meu coque, então, já mais simpatizada com a dona Brenda, respondi.
– Não irei ignorar a hipótese, mas no momento estou de cabeça cheia para isso.
– Tudo bem! Só pense... Vamos descer. O leite já deve ter esquentado e re-esquentado enquanto estamos aqui papeando. Mas não descarte essa hipótese viu! – dando muita ênfase.
Descemos as escadas e chegamos na cozinha onde Renan já tinha posto a mesa e estava em pé olhando pela janela a luz do dia que se intensificava a cada minuto. A luz do sol dava um toque especial naquela farda de policial e olhos castanhos.
– Finalmente Brenda! Pensei que não desceriam mais – em tom de brincadeira Renan exortou a irmã.
– Ah vá, Renan, estávamos conversando um pouco – e olhando para mim, sorriu ironicamente ao qual tive que corresponder com um sorriso tímido.
– Conversando é? Hum – Renan olhava desconfiado. – E posso saber sobre o quê estavam conversando? – sentou-se à mesa.
– Deixa de ser curioso meu caro irmão, a moça deve estar com fome, vamos tomar café – virando-se para mim puxou a cadeira ao lado dela – Sente-se aqui e sinta-se a vontade. – Renan a olhava muito pasmado e desconfiado.
– Brenda, desde quando se tornou uma anfitriã tão gentil?
– Sempre fui gentil, não venha com essa de me criticar!
Começamos a comer e Brenda não se deixou calar nem por um minuto, falava coisas sobre a família, o trabalho de Renan e o como o irmão precisava arranjar uma esposa, o que o deixava muito sem jeito e retrucava-lhe por varias vezes em vão, pois o assunto recomeçava. Tenho que admitir que foi interessante conhecer essas duas pessoas, mesmo sob circunstâncias tão lamentáveis e de luto. Queria os ter conhecido num outro tempo, seria muito bom ter mais amigos, sempre fui meio caseira, como disse Brenda, minha vida era estudos, trabalho e computador. As visitas eram meu pai, pois minha mãe já era falecida, duas irmãs que moram em outro estado e Alicia. Às vezes uma ou outra colega de trabalho aparecia em casa para tomar um café e logo se ia embora. Eu era um pouco sozinha na verdade, gostaria de ter companhia como a de Brenda, ia falar tanto que encheria minha casa vazia com a sua voz e energia.
No final da conversa, Brenda queria saber o que havia acontecido e Renan deu um por cima do assassinato de Alicia sem mencionar o governador nem a carta de ameaça. Brenda ficou com real tristeza ao ouvir o relato. Me impressionei. Pois são tantas as pessoas egoístas e sem sentimentos que é espantoso encontrar pessoas que são capazes de se colocar em nosso lugar de forma tão intensa que parecem sentir mais por nós do que nós mesmos.
Brenda nos acompanhou até a porta. Estendi a mão para dar-lhe tchau num cumprimento, mas ela me puxou pelo braço e me abraçou com força cochichando no meu ouvido: – Não esqueça sobre o que falei do meu irmão, ele é um cara muito legal.
Renan me tirou dos braços dela – Quanta emoção Brenda, solta a moça, temos que ir a delegacia agora. - Brenda me soltou e ficou acenando da porta a se despedir. Renan sacudia a cabeça de um lado para o outro inconformado com os exageros da irmã.
– Desculpa Mari, Brenda é muito expressiva... exagerada em tudo.
– Que nada. Eu até que gostei dela.
– Percebo que ela também gostou muito de você, e isso é muito difícil. Não sei se percebeu – continuava conversando enquanto entravamos no carro – que ela examina as pessoas com um olhar muito assombroso.
– Percebi sim. Me incomodou de inicio, mas depois me acostumei.
– Isso é uma mania que ela pegou depois de dez anos trabalhando como detetive particular. Faz uma analise clinica e precisa do perfil de personalidade de todas as pessoas que acaba de conhecer. O lado bom é que ela sabe quando alguém fala a verdade ou mente. O marido dela que o diga. Uma vez passou a noite fora e disse que estava trabalhando até tarde, pra que ele foi mentir! Ela jogou a frigideira na cara dele que deixou marcas até hoje. No final admitiu que passou a noite bebendo com os amigos do trabalho e jogando cartas. Ela deduziu isso sozinha por todos os “fatos”, como ela chama as evidencias ou quase evidencias que a levam a chegar numa certeza. Depois desta nunca mais Jurandir mentiu.
– Pensando bem, acho que esse dom deve ser de grande ajuda.
– Sim, em alguns casos ela até me ajuda a analisar se a pessoa esta mentindo ou mesmo se tem “cara de culpada” como ela costuma dizer.
– Sua irmã é única.
– Não tenho duvidas!
Capítulo 3
Na Delegacia

Depois dessa breve conversa ele ligou o carro e então não nos falamos mais até chegar à delegacia. Entendi o que ele quis dizer sobre o ambiente desgostoso logo de cara. Descendo do carro já havia dois elementos algemados descendo do outro carro escoltado por dois policiais com uma cara de dar arrepios. No outro canto uma senhora chorava aos berros e ao mesmo tempo falando: “– Meu filho, porque ele tinha que morrer desse jeito? Tão jovem! Era seu primeiro assalto! Nunca foi disso, moço”... 
Não foi lá das melhores impressões. Quando passei pela porta vi um balcão onde provavelmente recepcionavam as pessoas e algumas cadeiras. Em duas delas estavam travestis algemados que falavam alto e faziam estardalhaço, quando entramos um deles se levantou em direção a Renan até que o outro policial o empurrou pelo peito forçando-o a sentar-se novamente.
– Yuhuuu! Oi lindo, lembra de mim – gritou o que estava de peruca ruiva.
Renan sorriu e acenou. – Lembro sim Jorge! Como vai?
– Vou bem, se não fossem essas algemas tão démodé... estaria melhor – era uma voz tão ardida e um jeito tão descarado que me irritou por um momento.
– Eu te disse para não ir mais naqueles becos, mas você não quis escutar.
– Podes crer... eu não volto mais lá, só tem pessoal de confusão. De agora em diante só vou na avenida Ruby onde tem gente rica e educada, dá para faturar mais.
– Ta bom... Agora vou falar com o delegado. Te cuida!
– Vou me cuidar sim, mas se você cuidasse de mim seria mil vezes melhor, bonitão!
Enquanto a minha reação era de aversão àquela pessoa, Renan apenas ria-se muito e continuava andando até a outra porta. Percebendo como eu estava me sentindo deslocada no meio de todo aquele alvoroço ele me segurou pela mão dando apoio emocional.
– Não precisa ter medo – falou olhando calmamente para mim. – Esses travestis na maioria são gente boa, só fizeram escolhas ruins na vida e pagam por isso a cada dia. Eu sinceramente tenho pena. O que estava falando comigo mesmo tem diploma de engenheiro, mas entrou nas drogas e hoje precisa se prostituir para manter o vício.
– Que lamentável – respondi com uma ponta de pena e outra de condenação. – Mas como o conheceu?
– Numa noite, já faz mais de meses. Houve um assassinato dentro do motel onde ele estava. O cliente dele era um respeitável juiz e o crime foi encomendado por um dos que ele condenou em tribunal. Foi vingança. O Jorge mesmo estando nesse mundo desleixado de vida nunca havia presenciado um assassinato e estava petrificado de assombro. Levei-o para a casa da Brenda e depois de se trocar e comer algo o trouxe a delegacia.
– A casa da sua irmã é parada obrigatória antes de vir à delegacia, não é?
– É... – risos – Infelizmente, pois sei que ela não gosta muito de acolher essa gente. É que não consigo ver alguém precisando de ajuda e ignorar. Por trabalhar na policia eu deveria ser mais frio, mas não consigo, então...
– Então acaba se envolvendo demais não é verdade?
– É, você esta certa. Me envolvo demais e acabo fazendo “amizades” estranhas como a que viu lá na entrada.
– O importante é que você é uma pessoa boa e justa. Isso me reconforta, pois quero muito que o governador pague pelo que fez com Alicia, ele não tinha esse direito!
– Vou me esforçar ao máximo – parou comigo a frente de uma porta. – Aqui é a sala do delegado, vamos entrar e você conta a mesma coisa que me contou. Ok?
– Ok, cada palavra – garanti.
Entramos, o delegado foi cordial e convidou-nos a sentar. Depois me ofereceu um café e apagou o cigarro. O cheiro do mesmo impregnava a pequena sala mal iluminada que continha uma mesa e uma estante de madeira antiga bem ruída. Ele era gordo, meio calvo com camisa branca encardida. Vestia calça estilo social marrom que estavam bem batidas presas por um suspensório, dono de um ralo bigode falhado.
– Bem minha jovem, qual o problema que a traz aqui? – se espichava na cadeira com os braços esticados para trás num exercício calmo e gracioso para um homem tão robusto.
– Eu... – parei por um instante amedrontada, mas depois que olhei para os olhos de Renan senti tanta confiança que não gaguejei mais em nenhuma palavra. – Eu fui testemunha de um assassinato e gostaria de dar queixa.
– Hum... entendo – sua calma era invejável. – Bom, Renan você deve ter as perguntas que fez à jovem antes de trazê-la a mim, certo?
– Sim, tenho... mas eu gostaria que ouvisse a declaração da própria testemunha, assim perceberá o tamanho da sua sinceridade.
– Certo, certo... pode começar jovem, me diga tudo que disse para o Renan – Agora ele se estirava na cadeira acariciando a barriga com a mão direita enquanto segurava o copo de café levando-o a pequenos goles com a mão esquerda.
– A jovem assassinada – iniciei a contar – era Alicia, minha melhor amiga. Ela estava grávida e o homem que a engravidou não quis assumir, pois era casado e iria sujar sua imagem. Pediu que ela retirasse o bebê e como ela se negou, mandou alguém matá-la.
– Pois é minha jovem, um caso típico que acontece muito todos os dias. Jovens que... me perdoe a expressão, agem de forma descuidada e irresponsável se envolvendo com pessoas perigosas. No mínimo ele era um traficante, bandido, seqüestrador, algo do gênero.
– Não! – respondi de forma incisiva.
– E então? O quê faz da vida esse homem?
– É o governador – terminei.
O homem teve um tremelique na cadeira desequilibrando seu grande corpo que por um pouco não caiu no chão, cuspiu o café que tinha na boca longe, quase na minha cara. Depois se engasgou com o restante e tossiu varias vezes até limpar a garganta. Por fim pigarreou e limpou a boca com a manga da camisa, ação esta que explica o porquê do encardido. Com olhos arregalados para mim como se eu fosse a criatura mais notória de todos os tempos, ainda rouco pelo acidente com o café, falou-me advertindo:
– Moça, moça! Essa é uma acusação muito séria! Contra uma pessoa de muito prestigio, sabia!?
– Sim, eu sei. Alicia me contou antes de morrer o apuro que estava passando e deixou claro que o homem era o governador Dr. Lauro Prophiro. Eu não tenho motivos para duvidar das palavras dela, afinal ela nunca mentiu.
– Pode ser, mas a senhorita tem provas?
– A única coisa que tenho é esta carta que me foi deixada como forma de ameaça caso eu levasse o caso à delegacia. Mas não tem como ser a letra do governador até porque ele não seria tão tolo a ponto de escrever de próprio punho.
– Certamente – murmurou o delegado ao pegar o papel da minha mão. – Bom, minha jovem, creio que deveremos esperar o resultado da perícia. Mas na situação em que se encontra precisará de proteção à testemunha.
– O Renan havia me dito, mas como isso funciona?
– Bom, depende muito. Uma das coisas que podemos providenciar por enquanto é que você mude de moradia para outro estado até o final do inquérito.
Isso me deixou perdida por uns segundos e depois que consegui esclarecer as idéias eu me levantei angustiada.
– Não! Eu ainda estou terminando minha faculdade e tenho trabalho com registro também, vai atrapalhar muito a minha rotina.
– Moça – me cortou a palavra o delegado de forma sarcástica – Se não aceitar a proteção, creio que não terá vida para manter rotina alguma. O mais sábio é aceitar essa proteção e se ver livre de vingança.
– Mas eu não posso – retruquei – Eu não vou deixar meu estado e tudo que tenho me empenhado, minha casa não pode ficar ao abandono.
– Não senhorita. Não ficara ao abandono, será vigiada por policiais duas vezes por semana, talvez deixemos um policial dormir lá como guarda de sua propriedade. Além de que os vizinhos tem o costume de cuidar das casas uns dos outros. Sobre os estudos, veremos se o governo pode guardar sua vaga até o seu retorno. Sobre o emprego, no início o governo irá te ajudar e depois há facilidade em arranjar outro emprego onde estiver morando.
– Hum! O governo – redargui – O mesmo governo que quer me matar. Terei de confiar na ajuda de meu assassino?!
– Espere, é o que podemos oferecer por hora, até o caso ser resolvido. Então, deseja aceitar a ajuda?
– Eu... prefiro pensar um pouco mais antes.
– Sendo assim... ficamos a espera de uma posição sua.
– Tudo bem, agradeço a oferta. E quanto ao documento?
– Não se preocupe, vamos redigir e logo você assina e passamos adiante o processo.
Nisso tudo se passou mais de duas horas, ainda bem que havia tomado café na casa da Brenda, pois iria morrer de fome caso Renan me levasse direto para lá. Sei agora o porque ele ajuda as pessoas, pois meio que são tratadas com descaso neste lugar.
Depois de ter assinado o B.O sai com Renan que me deu uma carona até em casa. Por mais rápido que possa ter parecido, tudo durou cerca de um dia inteiro. Quando chegamos desci do carro e ofereci um café a Renan, pois era o mínimo que eu poderia fazer por toda a ajuda prestada. Mas ele negou agradecendo e disse que deveria voltar o mais rápido possível para a delegacia a fim de dar baixa em seu horário de trabalho que já havia passado. Então me despedi com um leve aceno e esperei a viatura sumir no horizonte.
Olhei para o céu e já estava noite. Era umas cinco e meia. O céu misturava um azul escuro com partes alaranjadas. Me abracei em frente a calçada e voltando-me para trás observei minha casa. Sentia um ar sombrio vindo dela. Minha casa, minha casa que agora parecia ser um lugar estranho. Andei devagar até a porta, em volta ainda era possível ver vestígios das faixas de interceptação da perícia jogadas aos pedaços pelo chão ou restos de amarras no cercado do jardim.
Capítulo 4
Falsa Calmaria

Quando coloquei a chave na fechadura e segurei a maçaneta, voltou sobre mim todo o terror da noite anterior, meu coração disparou. A sensação que tinha neste momento era de que a morte me aguardava dentro de casa assim como aguardou Alicia. Abri a porta devagar, deixei meus ouvidos tão aguçados que conseguia ouvir o barulho da geladeira, os pingos de água que caiam sobre a pia e até mesmo a caixa d água recarregando. Tudo estava escuro, procurei rapidamente o interruptor e liguei-o.
Com a luz acessa as coisas ficavam mais familiares, aos poucos comecei a me acalmar. Apreensiva, fui à cozinha e preparei algo simples para comer. Sentei-me de frente a TV. Queria esquecer por um pouco tudo o que havia acontecido. Mas, em vão. Quando eu mirava o chão da sala, via Alicia jogada, ensangüentada e morta. Me dava enjôos, não consegui continuar ali, por isso terminei de comer e levei a louça para a pia, fiz um chá, desliguei a televisão e subi para meu quarto. Todos os cômodos da casa pareciam serenos, como o eram antes da noite anterior. Resolvi tomar um banho e tentar relaxar. Todo o meu nervosismo não resolveria nada.
Dentro do quarto abri a janela por um instante, observei o jardim. A noite era calma e sem vento, a lua nova estava enorme e com sua luz amarelada iluminava a rua de forma a dar boa visão de toda área. Fechei a janela e tirei a roupa que estava vestindo. “Ah é mesmo, esta roupa é da irmã do Renan. Amanhã irei lá devolver e agradecer a ajuda”. Pensei enquanto vestia um roupão e pegava a toalha.
Ao entrar no banheiro pendurei a toalha no suporte, tirei o roupão e liguei o chuveiro. Enquanto a água quente descia e enchia o ar com sua névoa aquecida e reconfortante, fiquei de frente ao espelho me indagando: “Como pode? De um dia para o outro, mudar toda uma rotina. De um dia para o outro perder tudo pelo o que tanto me empenhei”. – virei e me apoiei na pia, olhando para o teto, meditando melancolicamente em como seria minha vida se eu aceitasse o programa de proteção à testemunha. Mudar de nome, de aparência, de estado... era algo tão radical, tão inaceitável. Eu não queria uma vida de fugitiva. Só de pensar nisso tudo me dava um estresse que estremecia meu corpo. No fim, achei ser desnecessária afinal, talvez a ameaça não passasse de um blefe.
Aos poucos entrei debaixo do chuveiro, aquela água quente dissolvia minha angustia. Uma sensação gostosa deslizava sobre meu corpo fazendo as preocupações escorrerem com ela para o ralo e por alguns instantes me senti aliviada. Meus pensamentos se tornaram menos aflitivos, pensei em meus estudos, no trabalho, no Renan... então percebi que o shampoo havia acabado, abri o Box e andei até a parte inferior da pia onde tinha um armarinho. Abri a sua porta e peguei o shampoo, neste momento houve um grande estouro que apagou todas as luzes da casa, seguido de muita fumaça. Assustada cai de joelhos no chão e comecei a tossir. Levou um pouco de tempo para eu perceber o que estava acontecendo. O chuveiro em chamas e as paredes pretas como carvão. Quando me olhei no espelho estava cinzenta de fumaça queimada. Enrolei-me na toalha e sai atordoada do banheiro tiritando de assombro. Encostei-me à parede ainda tossindo muito onde ficou uma marca como uma sombra. Em seguida ouvi um barulho de moto iniciando a partida. Andei cambaleante em direção ao meu quarto e abri a janela. Na rua havia um estranho encapuzado sobre uma moto acelerando freneticamente e que saiu numa só arrancada violenta a cantar pneu. Eu não tinha duvidas, este estranho era o cumprimento do bilhete!
Voltei lentamente de costas e desabei sobre minha cama. Literalmente desabei como o peso de um tijolo. Aflita não sabia o que fazer. Resolvi então pedir ajuda, lembrei do cartão que Renan havia me dado. Peguei o celular tremendo tanto que quase não consegui digitar, liguei. Demorou três toques e finalmente Renan atendeu com voz de sono, já era de madrugada. “Alô?” – disse ele, no que fiquei muda.
– Mari?! É você? – perguntou Renan com voz rouca e bastante preocupado. Ao invés de responder, estava tão nervosa que apenas acenava com a cabeça, estava tão abobalhada que nem me vinha à mente que ele não poderia ver minha resposta a não ser apenas ouví-la.
– Mari, eu já estou indo, só cinco minutos. Se acalma!
De minuto em minuto Renan ligava e perguntava se eu estava bem, e eu apenas conseguia resmungar algumas palavras incompreensíveis que ele entendia como sim. Finalmente chegou. Batidas enérgicas em minha porta soavam escada à cima. Eu sabia que era Renan, eu queria atende-lo, mas não conseguia levantar da cama, não conseguia falar. Só pensava – Meu Deus! Eu quase morri! Tentaram me matar como fizeram com Alicia. Meu Deus! Meu Deus! – Uma grande fraqueza do homem é pensar quando deveria agir e agir quando deveria pensar, trocamos as coisas na hora do desespero.
Renan inquieto começou a gritar pelo meu nome e pedir para que eu abrisse a porta. Mas não adiantou porque fiquei imóvel, como uma boneca de cera. O celular agora estava jogado sobre minha cama ao lado da minha mão. E eu, devaneando em quantas desgraças poderia ter acontecido ou poderiam me acontecer daqui para frente. Foi quando fui acordada do sono consciente em que estava por um barulho forte de algo caindo, a porta havia sido arrombada. Meus olhos se fixaram na porta do quarto e uma sombra crescia na parede, seguindo as pisadas fortes nas escadas. Finalmente pude ver os olhos de Renan, o único conforto que sentia naquele momento era de que não estava mais sozinha. Tinha alguém para me ajudar.
Renan estava espantado ao entrar e quando me viu sentada e imóvel na cama ele começou a falar entrecortando – Ma-Mari... você esta pálida. – quando encostou as mãos no meu braço ouvi sua voz gentil soar desta vez com uma pena enorme.
– Você esta gelada! Vai ficar doente. – levantou-se e fechou a janela que estava toda escancarada, depois se sentou ao meu lado e me abraçou. Neste instante todas as minhas emoções reprimidas, dores internas, medos, tudo que estava segurando desde a noite passada aflorou em lagrimas, um verdadeiro rio escorria de meus olhos e caia sobre o ombro de Renan. Mas meu choro era silencioso, apenas pequenos gemidos de dor, uma dor que nunca saberia descrever. Parecia que eu tinha engolido um saco de areia e que este se tornara pontas de agulha que me feria de dentro para fora como se desejasse me transpassar. Ainda assim não era exatamente o que eu sentia, era um sufocamento, uma loucura de tormentas.
Com o calor de Renan e depois de muito chorar sentia-me mais viva, voltei a corar. Estava novamente aquecida e enfim, adormeci nos braços dele.
No outro dia acordei enrolada com edredom sobre minha cama e numa cadeira ao lado estava Renan que dormia torto quase caindo. Levantei-me devagar e me sentei com as costas na parede enrolada no edredom e abraçada com o travesseiro. Admirei Renan por uns dez minutos. Quieta com respiração leve. Me sentia muito melhor.
Levantei-me e desci as escadas com a leveza de uma borboleta, não queria acordá-lo, já bastasse tê-lo incomodado na noite passada e o feito vir correndo me acolher. O mínimo que eu poderia fazer era deixá-lo dormir um pouco mais e fazer um café.
Passado cerca de uma hora eu ouvi passos apressados na escada e enfim vi o rosto de Renan expirar alívio quando me viu.
– Ufa... você esta bem – disse ele.
– Sim. Graças a você. Por favor, sente-se e tome um café.
– Preparou tudo isso para mim? – perguntou olhando a mesa que eu havia posto, estava caprichada com frutas, cereal, pão sovado, geléia, café e suco.
– Sim – sorri – É o mínimo que posso oferecer a alguém tão bem disposto como você. Agradeço muito ter atendido meu pedido de socorro, mesmo sem ouvir nenhuma palavra. Como soube que era eu?
– Como soube? – Ele ficou surpreso com a pergunta e embaraçado. – Bom, quando você fez a ficha do B.O escreveu seu numero, então salvei na memória do meu celular. Caso acontecesse algo, seria mais fácil saber... – antes de terminar o interrompi.
– Puxa! Você é realmente muito atencioso!
Renan ficou vermelho e pasmo, me olhava com certa admiração, então eu que fiquei sem jeito, mas perguntei – Tudo bem? Tem alguma coisa atrás de mim? – e me virei com rapidez para a janela da cozinha amedrontada. Ele apenas sorriu e baixou a cabeça, pegou um copo e colocou café. – Nada não.
Capítulo 5
Alguém para cuidar de mim

Enquanto Renan tomava café, pois eu já havia tomado o meu, falava sobre seus avós que moravam no interior e sobre as investigações de Brenda na sua época de detetive. Algumas situações bem engraçadas. Falou de sua infância e perguntou algumas coisas sobre minha vida das quais fui respondendo de acordo com a minha memória. Foi uma manhã muito boa, até que finalmente terminado o café, ele me olhou seriamente.
– Mari, sobre ontem... – falou-me com um olhar triste – eu acho que aquilo não foi um acidente.
– Eu sei – respondi abafado. – Foi uma tentativa de assassinato. Queriam me apagar para não poder depor contra o governador.
– Sim, temo que sua vida corra tanto perigo quanto imaginávamos.
– Eu sei...
– Mari, sei que não deseja mudar sua vida, ninguém gostaria de fazer algo tão radical. Mas sei também que sua vida não esta a salvo neste lugar. Você precisa ir para outro estado. Para o seu próprio bem. Não há parentes que moram longe na casa dos quais poderia se refugiar?
– Sim. Na casa de minha irmã em outro estado. Mas....
Renan se aproximou e me tocou o ombro.
– Mari, não será por toda a vida, apenas pelo período do inquérito. Será como se estivesse de férias!
– Férias por tempo indeterminado, né? – palavras desanimadas saíram por meus lábios com tamanha tristeza que Renan soltou meu braço.
– Verdade – disse ele – Não vou mentir. Pode demorar anos. Mas pelo menos estará a salvo.
– Hum... – a verdade é que eu não queria aceitar tudo isso.
– Se você quiser podemos ir até a delegacia e vamos falar do ocorrido ontem à noite, de imediato vamos conseguir ajuda com viagem e demais despesas para que em poucas horas esteja com sua irmã bem longe desta confusão.
– E longe de você também – saiu com uma naturalidade que quando me dei conta já havia dito, tentei consertar a situação, mas em vão – Que-quero dizer... longe de sua proteção como policial, afinal você me ajudou tanto e ficarei sem esta ajuda.
Renan ria-se por perceber o quanto fiquei ruborizada e perdida.
– Bom – começou a falar comigo – de qualquer forma, nesta casa sozinha você não deve ficar mais. Tem alguma amiga que more aqui próximo onde possa morar por enquanto?
– Não. Amiga mesmo era só Alicia. As outras pessoas são mais para conhecidas, e depois de saberem do perigo que passo, não irão se arriscar por ceder suas casas.
– Entendo. Situação difícil – aflito passava as mãos no rosto, até que num sobre-salto parecia ter tido uma grande idéia – Acho que sei como resolver isso. Espera um minuto aqui ok? Preciso fazer uma ligação. – Acenei que sim com a cabeça, fiquei curiosa.
Logo ele voltou com um sorriso nos lábios.
– Pronto! Resolvido! – Renan falou com ar de vitória.
– Ãh? Como assim resolvido? – perguntei sem nada entender.
– Liguei para Brenda e ela concordou em que você more com ela por um tempo, contanto que ajude nas tarefas de casa – respondeu com ar brincalhão.
Fiquei extremamente sem fôlego. Brenda, alguém que mal eu acabara de conhecer cedendo sua casa para mim (uma estranha), como eu poderia aceitar isso?!
– Não Renan, de forma alguma! Eu não posso atrapalhar a vida da sua irmã. Já basta as pessoas das quais você vive levando lá... não quero ser um fardo para ninguém.
– Fardo nenhum, Mari! Como ela mesma disse: contanto que ajude nas tarefas da casa, pode ficar. Além do mais uma casa com duas mulheres e um homem colocam muito mais respeito do que uma casa com apenas uma mulher sozinha. Isso pode intimidar os seus perseguidores.
– Não sei. Não quero que Brenda sinta-se forçada a me ajudar...
– Forçada? Mas que nada! Se Brenda não gostasse de você não iria te acolher nunca! Uns minutos são uma coisa, dias ou meses são outra bem diferente. E ela vive reclamando que é muito sozinha, pois o marido sai para trabalhar e ela fica só em casa. Também não tem muitas amigas. Acredito que vocês irão se dar muito bem.
– Tudo bem então, se você diz...
Renan começou a gargalhar e eu nada entendia, então fiz uma expressão de interrogação e ele me respondeu:
– Sabe Mari, antes de sairmos... acho que seria bom você tomar um banho, nem que seja de balde... porque se olhar bem no espelho... acho que as pessoas na rua irão ficar admiradas com sua aparência.
Subi as escadas e deixei Renan na cozinha, quando me olhei no espelho do quarto – Santo Deus! – exclamei. – Estou toda cinzenta de fumaça. Tinha até me esquecido. – Então resolvi tomar um banho gelado mesmo. Foi difícil remover tanta fuligem, principalmente nos cabelos.
Depois de me trocar desci e Renan estava a me esperar com a porta aberta apoiando o braço direito no batente e olhando a rua com um rosto passivo. Ao me ver, desceu alguns degraus. – Vamos Mari. Preciso ir para a delegacia agora. Já estou atrasado.
Assim me apressei, apenas peguei minha bolsa e fechei a porta. Acompanhei Renan até o carro e fomos para casa de Brenda.

Livro Proteção à Testemunha - 5 primeiros capítulos! Livro Proteção à Testemunha - 5 primeiros capítulos! Reviewed by Dayla Assuky on 11:16 Rating: 5
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